domingo, 29 de novembro de 2009

ÔNIBUS NEGREIRO

Oh! Deus dos desgraçados
Olhe para cá agora
Estes filhos amordaçados
Que a Paz agora implora!

E veja
Dentro daquela caixa
As senhoras de pé
Os senhores de pé
E os garotos sentados

Note
Os humanos apertados
Junto com seus sonhos
Agora apertados
Imóveis, loucos...risonhos

Repare
O transpirar de sangue
As vozes impacientes
Uma barca de Dante
Os olhos carentes

Oh! Deus dos desgraçados
Olhe para cá agora
Estes filhos amordaçados
Que a Paz agora implora!

E veja
Nestas curvas fechadas
Os trabalhadores a ruir
Motoristas de almas marcadas
Como um leão prestes a rugir

Note
A criança com pneumonia
Sem saúde, sem nenhum plano
Que vive hoje com sua tia
Pois sua mãe está em desengano

Repare
Nas mãos daqueles pais
Calejadas de torturas
Possuidores de muitos ais
Almas cortadas por ranhuras

É aqui que deveria parar meu poema
Oh Deus!
Oh Deus dos desgraçados
Olhe para cá agora
Estes filhos amordaçados
Que a Paz agora implora!

Um povo sofrido de ser ver
Vida atribulada como o chacoalhar do Ônibus
As donzelas enganadas
Os garotos sofridos
Que buscam nos finais de semana
Os espíritos se lavarem
No sêmen do esquecimento
Na viagem da cocaína

Mas não são deles
Esta viagem
A viagem do ônibus é sombria
Ela caminha para o deus da Obrigação
Que hoje é tão bem servido
Como o Deus original

Oh Deus dos desgraçados!
Sorria agora
Com seu riso de ternura
Para os pobres miseráveis
Que cantam pedindo pão
Para aqueles que ficam sentados

Mas assim os meus pensamentos voam longe
Cercados de planos e desenganos
Eu também luto na vida
E junto com eles eu estou

E assim meus versos são profanos
Pois ninguém enxerga o que está a sua volta
Então muito menos estas palavras

Mas assim será meu canto. Longe de querer ser ouvido, sei bem que nada, nada do que se diz será cumprido. Meus irmãos estarão sempre no Ônibus Negreiro. Com seus sonhos e com suas ilusões. Preocupados com as bundas dos finais de semana. E se esquecendo ou fingindo esquecer das desilusões.

Oh Deus dos desgraçados
Olhe para cá agora
Estes filhos amordaçados
Que a Paz agora implora!

Eu busco qualquer miragem
Dentro da minha imagem
Que é gerada no meu pensar

Tento enganar a minha carne
Que agora chora em busca do sublime
Mas eu finjo-me de surdo
E me esqueço das minhas razões

E assim são meus versos
Livres e caótico
"Na voz de um "pensador""
Que ousa pensar
Em um lugar aonde isso é proibido
Não na forma feudal
Com donzelas de ferro e feridas
Mas na forma corriqueira
Das zombarias...foragidas

Eu não vou fugir do desengano
Pois os ataques me fizeram forte
Devemos antes de tudo agradecer
A aqueles que nos atacam
Pois o beijo da donzela apenas amansa a carne
Más o chicote do carrasco
Traz força a carne
Que não é calejada
Marcada
Descorada
E também é experiente
Não mente
E transforma a mente

E ônibus segue para a montanha
E o sol brilha no porvir
Transformando aquele momento único
Na verdadeira consumação da vida
Não parece
Mas lá também ela deve ser vivida

Peço desculpas por estes versos tolos e desconexos
Mas também devemos pedir desculpas a vida?
Não, devemos agradece-la
Até no ônibus
Onde não parece, mas o momento é vivido também

Então
Veja
Note
Repare


Oh Deus dos desgraçados!
Olhe para cá agora
Estes filhos amordaçados
Que a Paz agora implora!

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